183 – Algo que você perdeu para sempre

Quando eu era pequena, entre os 7 e 10 anos, eu escrevia muito. Sempre gostei. Naquela época, eu tinha um caderno onde eu escrevia poemas. Era o que eu mais gostava e me divertia fazendo. Perdi o hábito de escrever por prazer conforme os anos e ano passado, voltei a me motivar. O blog Não Gosto de Unicórnios já foi citado várias vezes por aqui. Ele é escrito por uma xará, a Bianca Geisler, que tem muitos gostos parecidos com os meus e muito mais do que isso, ela tem um talento maravilhoso com as palavras. Através dela, conheci o desafio “642 coisas para escrever sobre” (saiba mais aqui) e eu decidi arriscar depois que escrevi a carta para o Gus  (leia aqui), que eu amei demais o resultado. Escrevi de acordo com o tema 183: Algo que você perdeu para sempre. Espero que gostem.


 

Éramos inseparáveis.

Conseguia ver meu reflexo em seus olhos verdes. E numa troca de olhares, conversávamos. Ríamos sem termos ouvido uma piada. Éramos pura sintonia. Corríamos para a sorveteria sempre que algo triste acontecia. Dois sorvetes de flocos com cobertura de caramelo. Combinávamos o que vestir. Conversávamos sobre tudo e nos entendíamos. Discutíamos e quase sempre acabava em abraço. Sonhávamos alto o suficiente para garantir que estivéssemos sempre perto. Você segurou em minha mão quando fomos na roda-gigante porque eu tinha medo de altura. Lemos Harry Potter ao mesmo tempo.

Cortamos os cabelos longos e loiros, que logo cresceriam novamente. Nos apaixonamos pelos palcos, você no teatro e eu na dança. Mas ensaiávamos juntas na privacidade do nosso quarto. Quarto que já foi rosa, verde, azul. Mas sempre nosso. Demos o primeiro beijo, você um ano antes de mim, mas os dois foram comemorados com a mesma animação. Éramos idênticas, mas você sempre foi mais corajosa, mais independente. Queria convencer que eu também era e eu acreditava em você.

Sofremos no ensino médio. Nos apaixonamos pela primeira vez. Encontros duplos, sempre. Dividíamos todos os momentos. Vocês terminaram no segundo ano e eu sequei suas lágrimas e te levei pra tomar sorvete. Você superou logo. No terceiro, era você que estava juntando os pedaços do meu coração partido. A escola, o vestibular, a vida. Nos afastamos da arte e eu perdi o encanto pela dança, enquanto você ainda sonhava com o teatro. Tudo estava pesado, nervoso, tenso. E nós sempre juntas. Uma cuidando da outra. Crescendo.

Veio a faculdade. Eu estava centrada no meu curso de medicina. Vivia de cara nos livros. Você estava feliz com sua escolha: artes cênicas. Sonhos estavam sendo realizados. Você tinha feito uma apresentação e pela primeira vez eu não fui. Também não fui na comemoração que teve depois. E me sinto culpada. Se você estivesse aqui, diria que eu não tenho culpa do que aconteceu. Mas talvez se eu tivesse ido você não tinha pego carona com um desconhecido. Talvez nada daquilo tivesse acontecido.

-Ei.
Abro os olhos e reparo que estava chorando, imersa em lembranças. Sinto algumas gotas de chuva. Ele se senta ao meu lado, me abraça e mais algumas lágrimas escorrem. Alguns minutos depois, sabemos que temos que ir embora antes que comece de fato a chover. Seco o rosto nas costas das mãos. Nos levantamos. Era meu aniversário. Nosso aniversário de 20 anos. E a única coisa que posso te dar são flores, que logo vão secar. Queria ser mais como você. Queria que você tivesse sido por mais tempo. Queria mais tempo com você. Nada se realizará soprando as velas. Encaro seu nome uma última vez antes de me virar.

 


E então, o que acharam?

Por favor compartilhem suas opiniões nos comentários!

Beijos, até mais.

 

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