194 – Ela era louca assim

“Abrace a gloriosa confusão que você é”

     Quando criança, ela usava tênis coloridos, um de cada cor, prendia os cabelos em dois rabos de alturas diferentes e brincava de Barbie todo dia. Na adolescência, ela usava tênis em festas, cortou o cabelo na altura da orelha, usava aparelho e praticava natação. Aos 20 e poucos anos, ela adorava dançar, trabalhava em casa e gostava de comer fora. Quem a conhecia, a achava louca. Quando eu a conheci, cinco anos antes, também achei.

     O que você não entendeu sobre ela é que ela também trocava as cores dos cadarços e tinha gente que achava graça. Que, na escola, não entendiam porque um rabo com elástico vermelho estava no alto da cabeça e o rabo de elástico verde estava atrás da orelha. Mas também que ela era a primeira a terminar de copiar a matéria dada na lousa, sempre a tirar as melhores notas da prova e que a professora elogiava constantemente sua letra bonita e redondinha.

     O que eu também não te disse é que ela usava tênis nas festas de 15 anos das amigas, enquanto as outras estavam de salto e, do alto, chamavam ela de louca. Não, ela não era mais alta. Ela apenas se sentia confortável daquele jeito. Todos elogiavam seu cabelo liso quase na linha da cintura e ela agradecia simpática, quando no outro dia ela apareceu com um sorriso que mal cabia no rosto e preenchia o coração, com os cabelos curtos. Era louca de novo. Ou quando chegava do dentista querendo mostrar para todos que seu aparelho quadradinho seguia uma sequência de cores, sete diferentes cores que se repetiam, uma em cada dente. Também não contei que ela participou e ganhou os campeonatos de natação que participou e que ela treinava todos os dias. Que ela limpou com a própria jaqueta o sangue no nariz de um aluno que havia apanhado e defendeu uma menina que brigava com o namorado ciumento.

     As amigas a achavam louca quando iam para um show e ela cantava até ficar rouca, dançava a noite toda e não dava corda para quem interrompesse a música. Você também não sabe que ela trabalhava em casa porque era dona do seu próprio negócio, que começou sozinha quando ainda estava na faculdade, quando todos diziam que ela era louca por querer investir em algo que não tinha garantia de retorno. Ah, e que ela gostava de comer fora porque ela adora massas e junk food e não resiste a um sundae depois do almoço. E porque ela nunca gostou de cozinhar.

     Quando eu a conheci, ela já tinha viajado para mais de 10 estados no Brasil, conhecido mais de 40 cidades brasileiras e que as favoritas dela eram sempre as litorâneas. Ela também já tinha conhecido 9 diferentes países e falava 5 idiomas fluentemente. Ela estava planejando uma próxima viagem, um mochilão pela Europa que duraria 8 meses e que ela realizou, embarcando alguns meses depois que havíamos nos conhecido.

     A conheci numa livraria. Uma mulher linda, 27 anos, cabelos abaixo do ombro, bolsa grande, quatro livros já abraçados e mais um na mão, enquanto ela lia a sinopse. Naquele dia, ela comprou os cinco e eu achei graça da variedade: um era sobre astrologia, um sobre negócios, um romance que havia virado filme, um era ficção científica e o outro era sobre moda. Acabamos tomando um café e descobri que a variedade não era só sobre a escolha para livros. Ela gostava de tudo quanto é tipo de música e suas favoritas iam dos anos 50 até o mais novo lançamento. Para entrar no ranking restrito, no entanto, era preciso que a música falasse com ela, que a cativasse com a letra, não importa qual fosse o gênero. Também descobri que seus filmes favoritos eram tão variados quanto os livros e que ela assistia a todos os filmes que lançavam no cinema daquele shopping. Também descobri que a bolsa era grande porque ela carregava três câmeras e uma agenda que era bem grande, seus itens indispensáveis. Ela era muito simpática e educada, com muita postura, mas também muito espontânea e ria abertamente. Mexia muito com os braços para falar e começava a cantar quando a música que começava a tocar era conhecida. Quando viu um amigo passar pelo corredor, assobiou alto e quando ele a viu, ela fez uma careta para ele, que riu primeiro e depois retribuiu. Descobri que ela não queria se casar nem ter filhos, mas adorava crianças, era voluntária em uma ong infantil e uma madrinha muito amorosa de dois meninos.Também aprendi que ela gostava de fazer perguntas, de saber a opinião dos outros sobre todos os assuntos e que elogiar ou não sua beleza não a abalava.

     Todos que a conheceram a acharam louca em algum momento, talvez em vários. Eu também achei. Então eu descobri que não era loucura, era personalidade. Ela era louca por não se importar com a opinião alheia, por se aceitar como era e ter orgulho de tudo que havia conquistado. Por saber o que queria, por nunca se acomodar e por batalhar por questões que ela acreditava. Por ser corajosa o bastante para ser ela mesma. E, finalmente, percebi que loucos somos nós, por não sermos como ela.

 

O texto acima é mais um tema da série ‘642 coisas para escrever sobre’, que já fazia tempo que eu não publicava por aqui. Como hoje é dia da mulher, resolvi compartilhar essa personagem autêntica e diferente, que me inspira. Quando escrevi, pedi a alguns amigos que lessem e a interpretação deles foi diferente. Principalmente com relação a pessoa que conheceu essa mulher, quem era a mulher e como eu me encaixo ao escrever esse texto. Queria compartilhar aqui os feedbacks deles (todos muito interessantes), mas achei que pudesse influenciar a sua opinião sobre o texto. Por isso, quero pedir que você, após ler, me conte nos comentários o que sentiu enquanto lia, o que você acha da personagem, o que entendeu da história, se gostou ou não, enfim, tudo. Não tenha medo da sua opinião, eu vou amar saber o que você achou.

E para todas as pessoas do mundo, termino com outra frase inspiradora: “Know who you are and know it’s enough” (“Saiba quem você é e saiba que é o bastante”).

Beijos e até mais!

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