Um sorriso de lado

Foto
Foto

     Três meses naquela escola e nós nunca havíamos conversado. Você não era da minha turma, mas eu já tinha te visto de longe. Entreguei a prova de química e saí. Ao redor da escola não tinha tantos alunos quanto eu esperava, pelo visto eu tinha terminado rápido. Sentei no gramado para esperar meus amigos e coloquei os fones de ouvido. Era um dia bonito. De sol, mas não estava abafado ou queimando a pele. Estava olhando para o longe, admirando o céu, quando algo tampou minha visão. Algo não, alguém. Você. Tênis preto, jeans escuro, alto, moreno, magro e forte, ombros largos e cabelos caídos. Quando meu olhar encontrou o seu, você sorriu. Eu tiro meus fones de ouvido, reparando que mal sabia qual música estava tocando. Estou confusa.

     – Oi, me chamo Henrique – você diz, sem parar de me encarar, quase como me avaliando.

     – Me chamo Priscila.

     Você sorri com minha resposta. Um sorriso de lado. Continuamos nos encarando. Eu ainda estava confusa, esperando você dizer alguma coisa. Um sorriso inteiro agora. Parecia muito tempo, mas foram questões de segundos até que eu percebesse um movimento, alguém que se aproximava. Minha amiga que chega e senta ao meu lado. Um grupo de amigos seus que querem te mostrar um jogo no celular.

     Nosso contato visual havia sido quebrado. Não soube se você tinha algo para me falar ou quanto tempo de fato durou nosso curto diálogo. Você e seus amigos em pé, ao meu lado esquerdo. Quase o time completo de basquete. Mais uma amiga que chegava e reparo que vocês estão saindo dali. Começamos a discutir a prova e algum tempo depois, estava distraída com as meninas.

     E então já era hora da próxima aula. Me levanto e então te vejo. Próximo da quadra, ainda com seus amigos, mas você também me vê. E então, mais um sorriso de lado.

Continue Reading

183 – Algo que você perdeu para sempre

Quando eu era pequena, entre os 7 e 10 anos, eu escrevia muito. Sempre gostei. Naquela época, eu tinha um caderno onde eu escrevia poemas. Era o que eu mais gostava e me divertia fazendo. Perdi o hábito de escrever por prazer conforme os anos e ano passado, voltei a me motivar. O blog Não Gosto de Unicórnios já foi citado várias vezes por aqui. Ele é escrito por uma xará, a Bianca Geisler, que tem muitos gostos parecidos com os meus e muito mais do que isso, ela tem um talento maravilhoso com as palavras. Através dela, conheci o desafio “642 coisas para escrever sobre” (saiba mais aqui) e eu decidi arriscar depois que escrevi a carta para o Gus  (leia aqui), que eu amei demais o resultado. Escrevi de acordo com o tema 183: Algo que você perdeu para sempre. Espero que gostem.

Continue Reading

Uma carta a Augustus Waters

Sabe quando a gente tem uma ideia literalmente do nada e não sabe se isso é bom ou ruim? Foi isso que me aconteceu. Não sei o porquê, mas eu simplesmente acordei com essa ideia, essa vontade de ter mais um pouco de Augustus na minha vida. A carta estava praticamente escrita na minha cabeça e digitá-la não foi tão difícil assim. Sou muito fã do John Green, de A Culpa é das Estrelas, de Hazel, Isaac e Augustus Waters. Chorei no livro e chorei no filme. E quando essa ideia me veio, eu precisava colocá-la em prática. Então espero que você goste dessa carta tanto quanto eu gostei. Que a entenda. E que ela te transmita algum sentimento. E espero que seja um bom sentimento. Depois de tudo isso, por favor me conte o que você sentiu, vou adorar saber. Agora, vamos a carta, de um personagem para outro, mas escrito por mim. E espero que John Green não fique bravo por ter me apropriado momentaneamente de seu mundo.

Hey Gus,

 
Cara, eu realmente tinha esperança que você fosse superar essa e viver mais alguns anos. O câncer já tinha te tomado uma perna e você conseguia viver tranquilo o bastante para ajudar os amigos, arranjar uma namorada e ainda filosofar tanto a vida com um sorriso no rosto de quem tem sempre certeza do que está dizendo. Feliz. Nos deixava feliz também. Sem você, eu não teria superado a Mônica ou a Hazel não teria ido pra Amsterdã. Não teria sobrevivido a droga que é ser cego. O mundo é injusto mesmo. Você morrendo de uma droga de um câncer mesmo tendo feito bem pra tanta gente e pessoas por aí se matando por causa da bolsa de valores mesmo que tenham uma mansão e dois jet skis. Você foi um bom amigo. Espero que você esteja certo sobre a vida após a morte e tenha rido da situação como quem sabe de tudo. E que então você esteja bem onde quer que seja. Você também devia saber que seu desejo será realizado, você não vai ser esquecido. Nem que para isso eu tenha que colar centenas de fotos dessa sua cara por todos os cômodos de todas as casas de todas as ruas para que toda a população dos Estados Unidos não se esqueça do quão insuportavelmente vaidoso e confiante você era. Não me importo. Porque agora nada importa mesmo. Você se foi. Você. Se foi. Vo-cê-se-foi. Ainda não me faz sentido. Gus, você já tinha passado por tanta coisa, mas mesmo assim o câncer quis te sugar a vida. Hazel também está triste. Inconformada. Falei com ela duas ou três vezes depois que você morreu. E é difícil falar com ela. Me lembra você, porque você irritantemente não parava de falar dela ou de como ela era inteligente ou bonita ou o quanto você a amava. Qualquer coisa que ela diz me faz lembrar alguma característica que você tinha me contado e que então me faz lembrar que você não tá mais aqui pra me contar essas coisas e então me faz lembrar que ela tá assim sem o brilho que você tanto falava porque você morreu. E é uma droga viver sem Augustus Waters. Porque jogar Counterinsurgence perde a graça. Ir ao grupo de apoio perde o sentido. Sentir o cheiro de cigarro é irritante. E ter câncer se torna ainda pior de suportar. Porque depois que se conhece Augustus Waters e fica amigo dele, você não quer deixar de ser amigo dele. E agora fui obrigado a isso. Hoje faz um mês que o câncer te levou. E eu acabei de chegar do cemitério. Hazel te levou tulipas e um maço de cigarros que eu espero que não estejam te metendo em confusão. Não havia muito o que falar. Era mais sobre estar lá e querer sentir que você também estava. Talvez no próximo mês a dor seja menor, mas o vazio vai ser sempre o mesmo.

 

Isaac
Continue Reading

BEDA#22: [+QP] Uma carta para você mesma

Olá minha gente, como vai? Hoje estreio minha participação nesse projeto tão bonito que se chama “Mais Que Palavras” e foi criado pelas Ana Gabriela e Lare Figueiredo. Entrei esse mês, com o tema Uma carta para você mesma. E o texto está abaixo, espero que gostem.

Sábado, 22 de agosto


Sabe quão difícil é encontrar as palavras certas para escrever aqui? Sim, porque não há nada escrito nessa carta que você já não saiba, mas cheia de coisas que você não pratica. Então para de ficar martelando coisas na cabeça e as ponha num papel, num plano, num projeto. Para de ter medo da vida, apesar de não querer demonstrar. Para de se importar com os problemas dos outros, você sabe que eles não são seus. Para de pensar demais, inspire e faça. Sua intuição pode lhe levar a experiências incríveis se você não paralisar de medo. Conquistar a independência exige muito mais do que imaginava, mais do que desapego, sonhos, batalha, exige autoconhecimento. E você, verdadeiramente, não é o que as pessoas enxergam de sua pessoa, você é mais. Porque se não se rotular, você pode ser tudo. Não se esforce tanto para ser alguém e passará a ser si mesma. E você muda a cada instante, acontecimento, escolha, a cada dia. Não tenha medo de se expressar quando quiser e de se calar quando achar necessário, mas faça por escolha sua, sem se arrepender. Não há nada do que se arrepender, cada ato se traduz num aprendizado que levaremos para frente. E, ainda, deixo aqui minha maior dica, pare de entalar sentimentos na garganta e então transformá-los em lágrimas caídas no travesseiro. Não muda seu futuro nem altera seu passado.


Um abraço,

Bianca

Continue Reading